Conversa com a psiquiatra Liamar de Abreu Ferreira, assessora da área técnica de Saúde Mental da SMS.

 

Muitos chamam a depressão de mal do século. Concorda?

Acho que tanto a depressão quanto a ansiedade estão mais incidentes, tanto pelo estilo de vida da sociedade como também pela maior divulgação. Quanto mais divulga, mais se atinge a população. Muita gente tem depressão e não sabe. Associa à desmotivação, à anemia, ao cansaço, que são alguns dos sintomas que podem mesmo mascarar o quadro de depressão. E a pessoa acha que não é. E também pelo estigma familiar, que fala que é falta de coragem e acaba levando em outros especialistas que não da área da saúde mental. Então, não sei se é o mal do século, mas a gente diagnostica mais (casos).

Acredita que o aumento na incidência dos casos documentados tenha mais a ver com o fato de hoje ser melhor aceito socialmente?

(A depressão) é bem aceita em termos. Tem um estigma da doença mental que acaba prejudicando. Uma coisa é você procurar ajuda e outra é você ser considerado como portador de um transtorno mental. Nem sempre há esse respeito. Há uma comparação conhecida diz que, quando alguém quebra a perna, ninguém fica falando “vai, anda, está tudo bem, se esforça”. Não, falam “coitado, quebrou a perna”, levam sopa. Agora, quando é transtorno mental, nem sempre é visível. Há um preconceito.

Há quanto tempo você trabalha com transtornos mentais?
Faz 18 anos.

Existe uma sensação de que hoje existem muitas pessoas diagnosticadas com depressão, ou já passaram por tratamento. De fato, há mais gente se tratando, até por essa experiência que você tem na área?

O transtorno depressivo precisa ter alguns critérios que o classificam entre leve, moderado e grave. E nem todos os casos necessitam de tratamento medicamentoso. Acho que é supervalorizada a medicalização, porque é um jeito até mais fácil de lidar com aquela dor. O remédio acaba sendo uma muleta. A sociedade é de consumo, capitalista, precisamos sempre produzir, não sobra tempo para quase nada. Os relacionamentos são rápidos, líquidos. Tudo isso causa uma angústia de viver. Então, para medicar, precisa ser um caso, no mínimo, de transtorno depressivo moderado. Casos leves podem ser tratados com psicoterapia, mudanças de alimentação, estilo de vida...

Então não é reflexo de uma geração mais depressiva do que outras?

Acho que não. Se a gente for observar a porcentagem de depressão, ela sempre existiu. Acho que é inerente a uma sociedade doente. A gente adoece também.

Como identificar a depressão e não confundi-la com outra doença mental?

A depressão passa por uma alteração de humor. A ansiedade é bem diferente, você tem a sensação de que vai acontecer alguma coisa, sem razão nenhuma. É mais difícil separar a tristeza da depressão. A tristeza é sempre reacional a algum fator. Então, estou triste porque não estou feliz com meu emprego, faleceu um ente querido. Mas há um período normal, de luto, readaptação. Já a depressão não tem uma causa, um sentido, um porquê. O melhor é sempre procurar um especialista.

O que o SUS oferece no acolhimento e tratamento da depressão? O que uma pessoa diagnosticada com a doença tem à disposição na rede?

Tem a atenção básica que é a UBS, a porta de entrada. A Secretaria Municipal da Saúde tem psiquiatras em UBSs que atendem junto com psicólogos. Há as equipes de Saúde da Família e, se precisar, tem o suporte do NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família), que é composto por psicólogo, terapeuta ocupacional, psiquiatra, e está em regiões mais vulneráveis. O direcionamento vai depender de caso a caso. Chegou, o médico de família ou o clínico atende, há o matriciamento feito pela equipe de Saúde Mental, e o que der para ser tratado na UBS será feito lá. Ou é feito o encaminhamento ao CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). Lembrando que o CAPS é porta aberta também.

Como abordar uma pessoa que ainda não percebeu o tamanho do problema?

A família precisa estar bem atenta, os amigos. O pré-diagnóstico é feito pelas pessoas mais próximas. Tem de ser bem claro, perguntar como a pessoa está se sentindo. Às vezes, até o patrão no trabalho percebe que a pessoa não está rendendo. O ideal é abordar, oferecer ajuda. Tudo que é falado mais abertamente é melhor.

Redes sociais acabam mais ajudando ou piorando a questão, a medida que expõe muita gente relatando seus casos depressivos?

Acho positivo, porque acaba divulgando mais. Tem vários youtubers que falam abertamente sobre depressão, como superaram. Tem até uma famosa que minha filha assiste e falou ‘olha, mãe, depois que eu assisti, pensei que posso ter um pouco de depressão’. Então acho positivo, quanto mais gente conversa e fala sobre o assunto, mais ele existe. Mas isso não substitui um diagnóstico preciso, mas pode ser um gatilho para procurar ajuda.

As redes sociais mascaram as alegrias e tristezas do ser humano?

É reflexo da sociedade de hoje você estar sempre sorrindo e postando foto. Teve até um post que vi no Facebook esta semana, acho que sobre o campeão de algum esporte, que foi a uma festa, estava superfeliz, deu uma entrevista, e no dia seguinte se suicidou. O depressivo não precisa estar só caído em casa sem tomar banho, né? Quando você tem alguns textos, algumas fotos, um amigo pode ver e intervir. O principal é não achar que você tem depressão e pronto.

Fonte: www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/saude/noticias/

 

Os Centros de Atenção Psicossocial e as Unidades Básicas de Saúde (UBS) são portas de entrada para o atendimento na área de Saúde Mental dentro da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo. Saiba mais clicando aqui.


 

A avenida Mutinga começou a ser recapeada pouco depois do Natal seguindo do acesso da rodovia Anhanguera até a estação de trem Pirituba, usando a pista totalmente neste sentido, fazendo que veículos no outro lado tivessem que fazer desvios, muitas vezes sem sinalização, causando mais trânsito que o normal. 


 

Evento realizado em 15 de outubro de 2019 no quartel da avenida Tiradentes no centro de São Paulo.

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