Av Raimundo Pereira de Magalhães, 5.028 - Pirituba (até março de 2015)

Atualmente Pq Industrial Anhanguera - Km 18 - Osasco - Tel. 3973-7900

 

Fundada em 13 de maio de 1950, a Fritz Dobbert é a maior indústria de pianos da América Latina e líder do segmento de pianos acústicos no Brasil. Empresa cem porcento brasileira, vem consolidando o ideal de seus fundadores de contribuir para a formação musical e cultural do país, apoiando as manifestações artísticas e buscando atender as necessidades educacionais, com constante aprimoramento de sua linha de instrumentos. Instalada em uma área de 27,5 mil m² na cidade de São Paulo, sendo 14 mil m² de edificações, a Fritz Dobbert produz diversos modelos de pianos de cauda e verticais, tendo atingindo a expressiva marca de 90 mil pianos fabricados desde o inicio de suas atividades. Hoje, a marca Fritz Dobbert tem o reconhecimento de grandes nomes da música nacional e internacional, professores e iniciantes na música, pela qualidade de seus instrumentos e pela seriedade com que se dedica a arte de fabricar pianos. 

 

As águas de março caíram com fúria sobre a Pianofatura Paulista, destruindo 400 pianos e acabando com a festa de aniversário de Maria Cristina Bottura. A menina, que naquele dia 13 de março de 1962 completava 8 anos, viu no rosto dos pais a alegria virar abatimento quando a notícia chegou: a fábrica da família havia sido devastada pela enchente. Como se vê, prejuízos por causa das chuvas de verão e da falta de infraestrutura urbana são coisa antiga na história de São Paulo. Muitos empresários já perderam tudo, mas alguns mantiveram a fé e o fôlego para recomeçar. Célio e Thyrso Bottura, os irmãos e sócios da Pianofatura, literalmente tiraram a empresa da lama e a transformaram, anos mais tarde, na mais prestigiosa marca brasileira de pianos, a Fritz Dobbert. Havia no local água e barro por todos os lados. “Eu era muito pequeno, mas me lembro que foi uma tragédia. O prejuízo seria equivalente hoje a uns R$ 8 milhões”, conta Célio Bottura Júnior, 55 anos, filho do já falecido Célio e herdeiro da empresa, ao lado do irmão, Carlos Alberto. A fatalidade tinha tudo para colocar um ponto final nesta história. Mas a garra e a disposição para continuar falaram mais alto. Os irmãos recomeçaram do zero e reinventaram a companhia, sobrevivendo e crescendo em um mercado dominado por Yamaha e outros gigantes. A Fritz Dobbert é hoje a maior fabricante de pianos da América Latina.


A empresa foi fundada em 1950, em um galpão no Canindé, em São Paulo. A iniciativa partiu do luthier alemão Otto Halben, que encontrou em Célio e Thyrso Bottura os sócios ideais, embora fossem leigos no assunto. Célio tinha 30 anos e era dono de uma importadora. Thyrso, dois anos mais novo, tinha uma joalheria. Para driblar a falta de mão de obra especializada, o alemão trouxe da Europa mestres luthiers, que ensinaram a técnica a artesãos brasileiros. Havia uma dúzia de funcionários, muita madeira nacional e matéria-prima importada. A empresa nasceu como Pianos Halben e o primeiro protótipo, um piano vertical, demorou um ano para ser concluído. No começo, a Halben fabricava 50 instrumentos por ano. Para se destacar, os sócios caprichavam na escolha da madeira e no acabamento, o que logo chamou a atenção dos lojistas especializados. Otto Halben, que já faleceu, saiu da sociedade em 1956. Júnior conta que o rompimento foi amigável, mas diz não saber os rumos tomados por Otto à época. A gestão foi reestruturada e a razão social trocada para Pianofatura Paulista, que ainda vale. A indústria mudou-se para Pirituba, na zona noroeste. Thyrso assumiu a produção e Célio, a administração e o comercial.  

NOTA DEZ: Os irmãos começaram do zero e conquistaram espaço e respeito em um mercado dominado por gigantes. Foto: Marcelo Min/PEGN
NOTA DEZ: Os irmãos começaram do zero e conquistaram espaço e respeito em um mercado dominado por gigantes. Foto: Marcelo Min/PEGN

Em dois anos, o número de funcionários pulou para 115. Em 1958, projetistas da empresa criaram uma série de pianos batizados de Fritz Dobbert, em homenagem ao alemão Fritz Wilhem Ernest Dobbert, que era um dos integrantes da equipe. A marca Fritz Dobbert foi lançada no ano seguinte. Alguns anos mais tarde, ela roubaria toda a atenção do mercado, passando a ser a única marca produzida pela Pianofatura Paulista. O Brasil vivia seus anos dourados, sob o comando de JK. A demanda pelos pianos crescia e veio a idéia de montar uma escola de marcenaria dentro da fábrica, para formar mão de obra. Pessoas que moravam na região viram ali a chance de aprender um ofício. Isso criou um forte laço entre os funcionários e a empresa. Jovens entravam sem saber nada e só saíam de lá aposentados. Geraldo Bento Lima, 59 anos, é o funcionário mais antigo da casa. Aos 14, foi admitido como aprendiz de marceneiro e, atualmente, é encarregado da marcenaria. “Seu Thyrso e seu Célio sempre deram muito valor aos empregados. Eles ajudaram muitas pessoas a construir suas casas”. 

 

Essa proximidade entre patrões e colaboradores foi fundamental para reerguer a empresa em meio às dificuldades. “As pessoas eram apaixonadas pelo que faziam — na mesma madrugada da enchente começaram a trabalhar, tentando salvar o que fosse possível”, afirma Júnior. À época, as vendas chegavam a 1.300 pianos por ano. Pedidos foram cancelados e os reflexos da tragédia duraram dois anos. Para vencer a batalha, os sócios renegociaram preços e prazos com fornecedores e novas datas de entrega com os clientes. Funcionários se dispuseram a fazer hora extra de graça e Célio vendeu o carro da família para reestruturar o negócio. Manter a produção artesanal e aliá-la à matéria-prima de primeira sempre foi uma das preocupações dos Bottura. Nos pianos de meia-cauda, a madeira da tábua harmônica é a mesma utilizada nos famosos violinos Stradivarius e vem da região de Val di Fiemme, na Itália. Incentivados por um programa governamental, nos anos 70, passaram a exportar para a América do Sul, os EUA e a Europa. Com isso, 40% do que era produzido destinava-se ao exterior. A produção cresceu para dois mil pianos ao ano e o número de funcionários chegou a 300.

 

Ao longo de cinco anos foram investidos R$ 5 milhões em maquinário, infraestrutura e matéria-prima. Os investimentos em marketing cresceram e a empresa começou a apoiar apresentações de músicos de renome. A relação com as escolas de música se estreitou. Para Antonio Mário Cunha, proprietário do Instituto Souza Lima, de São Paulo, com 1.800 alunos, “a gestão proativa faz da Fritz Dobbert uma empresa com diferencial no mercado”. A maré positiva durou até o final dos anos 80, quando as vendas anuais chegaram a cinco mil pianos, com crescimento de 20% ao ano. Em 1985, Célio Bottura Júnior tinha 29 anos quando aceitou a proposta do pai e foi trabalhar na empresa. Formado em engenharia civil pelo Mackenzie, a ideia de cuidar dos negócios da família não estava em seus planos, mas com a morte do tio Thyrso, o apelo familiar falou mais alto. A empresa está nas veias de Júnior desde a infância. “Aos sábados, eu vinha pra cá e ficava com os marceneiros, fazendo carrinhos”, conta. Por influência da família, estudou piano por dois anos, mas abandonou. “A professora era tão brava que batia na minha mão com a régua cada vez que eu errava uma nota”.

O ARTESÃO - O marceneiro Geraldo Bento Lima está há 45 anos na empresa: "Minha função é zelar pelo acabamento, do início ao fim. Foto: Marcelo Min / PEGN
O ARTESÃO - O marceneiro Geraldo Bento Lima está há 45 anos na empresa: "Minha função é zelar pelo acabamento, do início ao fim. Foto: Marcelo Min / PEGN

Os oito anos de convivência no trabalho com o pai, que faleceu em 1993, o prepararam para enfrentar os dias duros que viriam. “Aprendi lições fundamentais, como, por exemplo, a tratar funcionários com respeito e integridade. Ele me ensinou também a manter certa austeridade administrativa e a não dar passos maiores que a perna, mas sem perder a ousadia”. A chegada de Fernando Collor de Mello ao poder, em 1990, e a abertura do governo às importações quase feriram de morte a Fritz Dobbert. Instrumentos musicais estrangeiros mais baratos invadiram o mercado nacional e o real forte, em 1994, inviabilizou as exportações. “Foi um período muito complicado para o setor. Perdemos dez empresas de violão, três de piano e 40 de acordeom”, lembra Anselmo Rampazzo, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Instrumentos Musicais (Anafima). Não foi fácil manter a competitividade. “As indústrias asiáticas podem se dar ao luxo de oferecer preços mais baixos, porque os ganhos vêm do volume vendido.” Na Yamaha, por exemplo, boa parte da fabricação é automatizada. A área musical emprega 23 mil funcionários e fatura US$ 5,2 bilhões ao ano.


Mas, ao perceber a ameaça, os donos da Fritz Dobbert fizeram como provavelmente teria feito o pai: não se acomodaram. Foram atrás de parceiros internacionais. Fecharam, em 1997, um contrato com a japonesa Kawai, e se tornaram os representantes oficiais da marca no Brasil. A Kawai fatura US$ 1 bilhão e tem cerca de quatro mil funcionários. No Brasil, os pianos da marca variam de R$ 11.500 a R$ 250 mil — o modelo de cauda para concerto, feito sob encomenda. Os pianos Fritz Dobbert vão de R$ 9.500 a R$ 52 mil. Embora a Kawai seja um concorrente direto, Júnior diz que foi uma forma de agradar ao público. “Muita gente ainda tem preconceito com produtos nacionais”, afirma. Hoje, a Kawai representa 20% das vendas da empresa. Durante a crise dos anos 90, a produção caiu para mil pianos ao ano e muitos funcionários foram demitidos. Mais uma vez tiveram que se reinventar. Em 2000, aproveitando o domínio na marcenaria, eles abriram a Sette, fabricante de móveis. Atualmente, 25% do faturamento do negócio vem da Sette. A Fritz Dobbert voltou a crescer e os Bottura estão otimistas em relação ao futuro. Eles acreditam que a obrigatoriedade de aulas de música no currículo escolar vai resgatar nas crianças o interesse por instrumentos. Em 2010, a marca cresceu 5% e faturou R$ 15 milhões. “Passamos por dias difíceis e outros de glória, mas ainda me emociono sempre que vejo um instrumento ficar pronto”. (Ana Cristina Dib - Revista PEGN)

  

Fotos internas: PEGN e ESTADÃO



A demolição da fábrica em Pirituba começou em Agosto 2015, no local em que ela ficou até Março. Um condomínio com quatro torres deverá ocupar o local em breve.


O NOVO ESPAÇO DA FRITZ DOBBERT

ANTENA PAULISTA  (DEZ/2010)



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